Extratos
retirados do diário do Feitor e ferreiro-mestre Bâdleop Tintaliado,
da fortaleza de Sacovelho, do império Relíquia da Adoração. As
demais entradas são de pouca relevância, maçantes, ou de estilo
rebuscado demais para serem consideradas importantes. Aquilo que aqui
se encontra é suficiente, entretanto, para informar o relatório
sobre os acontecimentos do ano de 1052 no referido local. Gravuras da
fortaleza em anexo.
2 de
Granito, 1052
Hoje eu,
Bâhdleop Tintaliado, dou início à minha jornada como feitor de
Sacovelho. Cheguei aqui em meados do outono passado e, confesso,
tinha poucas esperanças sobre o lugar. Afinal, o nome em si não é
exatamente exaltador e, apesar da cercania pacata, tocas imundas de
malditos goblins não ficam longe. Mas, bem, aqui estou e, mesmo sem
saber bem o motivo, fui escolhido para zelar pelo lugar durante o
próximo ano.
O feitor
anterior, Oddiväl Pulacâmara, participou da construção de boa
parte da fortaleza atual e pôde me informar detalhadamente de seu
estado. Até me forneceu algumas gravuras que retratam com certo
detalhe, e até mesmo algum requinte, os meandros de seus corredores.
Tudo será de grande auxílio, já que pretendo expandir grandemente
o lugar. Somos apenas 20 anões no momento, dezenove descontado o
pobre Aban, encalacrado, louco, à espera da morte, mas creio que não
demorará até que dobremos em número. De fato, prevejo um brilhante
futuro para Sacovelho. Ugh... talvez devêssemos mudar esse nome.
***
15 de
Granito, 1052
Depois de
analisar calmamente a disposição atual da fortaleza e sabendo da
proximidade de goblins, resolvi que minhas prioridades deveriam ser:
um, construir e equipar um hospital, que necessariamente precisará
de uma manufatura de sabão e um poço com água limpa; dois, atingir
a autossuficiência em alimentos; e, três, colocar em prontidão pelo
menos uma guarnição, ainda que rota e mal treinada, mas de soldados
cuja dedicação seja exclusiva à defesa da fortaleza, algo que
depende de uma boa leva de imigrantes já que, correntemente, não
possuímos números para tal. É, creio que meu sucesso depende de um
tanto de sorte, e depender de sorte não é algo do que eu goste. Ah,
planejei também a construção de um cemitério. Afinal teremos de
enterrar Aban em breve e, conquanto não sejamos um grupo
particularmente velho de anões, muito ao contrário, cedo ou tarde
vamos precisar. Todos nós. E prefiro garantir eu mesmo uma boa tumba
para mim, com boas gravuras e quem sabe até uma estátua ou duas...
***
25 de
Granito, 1052
Aban
Roda-de-Marfim finalmente sucumbiu à sede. Um fim triste para um bom
companheiro e ainda mais triste para nós, que não pudemos provê-lo
com aquilo que ele necessitava. Mas assim é o destino daqueles que
enlouquecem em busca da perfeição. Precisamos urgentemente escavar
um lugar para o descanso final dos companheiros que vierem a morrer,
antes que a visão da morte de alguém tão jovem acabe por abater a
moral da fortaleza. Outra preocupação é Phillipe Portalança, um
dos fundadores de Sacovelho e mineiro por profissão, que está
sumido há vários dias. Ordenei buscas pelas minas e também nos
campos ao redor da fortaleza, mas até agora não temos sinal dele. E
há ainda o fato de que estamos efetivamente sem álcool e com níveis
críticos de comida. Ah, que desastre pode cair sobre nós se eu não
for rápido a lidar com isso!
***
15 de
Ardósia, 1052
Imigrantes!
Precisávamos de mãos extras na fortaleza e finalmente várias barbas
novas chegaram para ajudar. Ao todo são 19 anões, o que faz nossa
população dobrar! Espero que não sejam inúteis camponeses sem
qualquer habilidade, entretanto. E apesar de já termos alguma
bebida, ainda não é muita, melhor que tenham trazido sua própria
cerveja.
***
18 de
Ardósia, 1052
Era só o
que faltava... Lokum Pé-de-guilda, a médica chefe da fortaleza,
exigiu para si a oficina de artesanato
e começou a balbuciar coisas sem sentido... Maldição! Será que
não teremos um momento sequer de tranquilidade nesse lugar? O pior é
que não sei se ela vai encontrar as tralhas de que precisa para sua
"criação primorosa"... diabos... ela quer ossos. OSSOS!
Onde vou arranjar ossos? Acho que vou ordenar o abate de um ou ambos
os iaques. Espero que seja osso o suficiente para ela. Quer dizer,
DOIS IAQUES INTEIROS, não pode ser que falte osso, por Armok!
***
28 de
Ardósia, 1052
Lokum
finalmente terminou sua obra. Eu... nem sei o que dizer. Uma...
uma... arca feita inteiramente de ossos. Macabro? À arca ela deu o
nome de "O selvagem Carbonizador". Quero isso longe de mim!
Vou construir uma caixa-forte nos subterrâneos da fortaleza para
abrigar nosso bens mais valiosos e, com sorte, posso esconder essa
coisa por lá, longe da vista de qualquer um. Bom, pelo menos ela
acabou com sua obsessão e voltou às suas tarefas como médica chefe
de Sacovelho. Ah, ainda por cima ela 'enfeitou' a tal da arca com a
imagem de algo que ela chama de orca. MAS QUE DIABOS É UMA ORCA?
Nah... longe de mim com isso!
***
10 de
Felsita, 1052
O horror!
Tun Criptacicatriz foi encontrado morto na escadaria que leva às
minas! Ao que tudo indica, morreu de sede antes de poder chegar ao
refeitório. Uma morte que parece idiota, mas de fato não é, já
que entre a parte inferior das minas e o refeitório há quase 100
andares de distância. Certamente desceu para trazer alguma pedra
para o seu trabalho, sendo ele um pedreiro, mas esqueceu-se de beber
antes e... bom, olhando por esse lado, parece uma morte estúpida, de
qualquer jeito. Quem diabos se esquece de beber uma boa golada de
vinho duarfico¹ (a única bebida disponível por aqui em meses além
de... bleargh... água) antes de ir ao trabalho? E ainda por cima
falta um lugar para enterrar o estúp... erm... nosso pranteado
companheiro... preciso apressar a construção do cemitério.
***
11 de
Felsita, 1052
Phillipe
foi encontrado. Morto, infelizmente. Desidratado, morreu buscando o
caminho de volta para a parte superior da fortaleza. Essa escadaria
está custando mais vidas do que uma guerra com os malditos goblins,
por Armok!
***
6 de
Hematita, 1052
As coisas
têm estado calmas ultimamente. Calmas até demais, considerando o
passado recente. Espero que continuem assim, que isso não seja
apenas a calmaria que precede a tempestade, como dizem alguns humanos
que costumam se meter com navegação, mar e essas coisas. Quem é
que pode gostar de viver em uma casa de madeira flutuante movida pelo
vento? Muito, muito instável... só os humanos, mesmo...
***
27 de
Hematita, 1052
Ducim
Canalmolhado veio até mim relatar que... está vendo fantasmas...
pobre anão. Deve estar impressionado com a morte recente dos
companheiros. Ele diz que levou uma surra do fantasma de Aban, e
realmente Ducim está todo escoriado, tendo sido levado ao hospital
para descansar. Deve ter sido vítima de alguma troça, alguém se
aproveitando do fato de o pobre diabo ser tão impressionável. De
qualquer forma vou providenciar a finalização do cemitério o mais
rápido que der. Vai que... vai que não é só coisa de uma mente
impressionada... uhh, calafrio!
***
14 de
Malaquita, 1052
Finalmente
pude colocar nossos companheiros falecidos para descansar. Além
disso, ontem chegou uma nova leva de imigrantes. Mais 9 anões para
um total de 44 na fortaleza. Temos apenas 30 quartos, de maneira que
mandei construir um dormitório coletivo, já que no momento não
posso me concentrar em construir mais quartos. Espero que não haja
*muita* reclamação a respeito disso.
***
28 de
Malaquita, 1052
Desta vez
foi Caröllina Cercafornalha quem se enfurnou na oficina de
artesanato. Está gritando, louca, por blocos, tijolos e... ossos...
não, de novo não... MAIS OSSOS? O que há de errado com esse lugar
que faz todo mundo ficar obcecado com osso, por Armok! Pelo menos
conseguimos arranjar tudo o que ela queria. Agora está lá,
trabalhando freneticamente em alguma coisa que ninguém sabe o que é.
***
3 de
Galena, 1052
Gabrjella
Contestasino decidiu dar uma festa no Saguão Principal. Acho que
depois de tudo o que já aconteceu desde o começo do ano, era tudo o
que precisávamos.
![]() |
| !!FESTA DURA!! |
***
7 de
Galena, 1052
Caröllina
finalmente desocupou a oficina, e saiu dela com uma espada curta...
de osso. "Portão Umbral, a Água-Marinha de Pulmão" foi o
nome que ela escolheu para a arma. Se ela quer assim, quem sou eu
para dizer o contrário... Apenas estranho o fato de que a espada não
leva nenhuma água-marinha. Mas... vou discordar? Eu? Não vou.
Principalmente enquanto ela estiver com a espada em sua posse. Pedi a
ela que depositasse a arma em nossa caixa-forte, entretanto. Não
quero ninguém andando armado pela fortaleza enquanto não tiver
montado um esquadrão. E acho que já está em tempo de fazer isso.
***
16 de
Calcário, 1052
Uma caravana! E é de casa! Nossos compatriotas da Relíquia da
Adoração enviaram comerciantes para Sacovelho e creio que haverá
muito pelo que trocar. Precisamos de couro para armaduras, já que
não há gatos... erm... animais o suficiente para extrairmos por nós
mesmos tudo o que vai ser necessário, além de sementes para
plantar, algumas armas, gesso e tecido para eventuais ataduras em
feridos, alguma variedade de alimentos e bebidas para diversificar
nossa dieta e encher as dispensas para o inverno que vem chegando,
além de mais uma ou outra coisa de que posso não me lembrar agora.
Bem, barbas à obra!
![]() |
| Eu gosto de gatos. Não me julgue. |
***
1º de
Madeira, 1052
Infelizmente
nosso comércio com a caravana de Relíquia da Adoração não foi
suficiente para prover tudo o que precisávamos. Produzimos pouco em
termos de mercadorias de valor para torcar durante esses últimos
meses tão concentrado estivemos em nossos projetos para expansão da
fortaleza. É reconfortante, ao menos, o fato de que quase todos
estão concluídos. Falta apenas colocar de pé o salão de
treinamentos para a primeira guarnição de Sacovelho, já
selecionada. Foi possível fazer até mais do que o previsto, já que
ampliamos um pouco a área cultivável e aumentamos o corredor de
entrada da fortaleza, provida de uma nova ponte levadiça sobre um
fosso não muito profundo, mas seguro. Ah, com tudo isso até ia me
esquecendo: mais uma leva de imigrantes acaba de chegar. São mais
nove barbas e estou começando a ficar preocupado com as acomodações
que temos. Não creio que tenha tempo para grandes obras com apenas
três meses para o fim de meu mandato, mas... veremos o que será
possível.
***
1º de
Selenita, 1052
É
chegado o inverno. Tudo parece correr em ordem por agora. Espero que
continue assim.
***
20 de
Selenita, 1052
Claro,
não poderia durar muito tempo a tranquilidade em Sacovelho. Adil
Tochatentada invadiu a forja e gritou na minha cara por "joias,
carvão e METAAAAAAAAAAL". Ameaçou até jogar na minha cabeça
uma barra de zinco que eu estava trabalhando, quando fiz menção de
protestar. Aquele maluco! Bom, arranjamos o que ele pediu e agora ele
está lá, impedindo que eu conclua algumas coisas que tinha em mente
por causa de seu "projeto secreto", como ele chamou. Ao
menos dessa vez não tem ossos envolvidos, mas mesmo assim espero que
ele produza algo que seja útil, ou, pelo menos, bonito.
***
5 de
Opala, 1052
Sigh...
Adil concluiu seu... projeto. Um amuleto, que ele chamou de "Sumiu
Detectado". Nem sei como descrever, mas a coisa não acaba no
nome. No seu amuleto, ele gravou uma imagem de seu próprio amuleto
em cada face. Veja bem: Adil Tochatentada fez um amuleto em cujas
faces ele gravou imagens do próprio amuleto que ele fez. Não sei se
é um gênio ou um completo idiota, mas, por via das dúvidas, é
melhor não contrariar. Vai para a caixa forte, quem sabe depois de
Adil morrer essa coisa possa render uma boa quantia em alguma troca
com uma caravana...
***
25 de
Opala, 1052
Ao
extrair minérios em uma das seções da mina, alguns anões
inadvertidamente perfuraram uma caverna que há algum tempo já se
desconfiava que estivesse ali. Graças a Armok o contato entre a
fortaleza e a caverna é apenas aéreo. Ao olhar vão adentro, os
mineiros puderam identificar sinais de uma batalha recente entre, ao
que parece, sapos gigantes e homens-proteus. Pedi que fosse
providenciado o imediato selamento da caverna par que evitemos
qualquer risco por agora. No futuro, quem sabe, poderemos explorá-la
com calma, de preferência com um esquadrão bem treinado e equipado.
***
23 de
Obsidiana, 1052
Ah, um
sinal auspicioso para o ano que vai entrar! O primeiro anão nascido
em Sacovelho veio ao mundo hoje! Ou melhor, a primeira anã, Fikod
Porretecobalto, filha de Unib Solarmodelo e Sodel
Curandeiroestilingues, o escriba da fortaleza. Fiz questão de
parabeniza-los e pude até me certificar de que a criança recebesse
logo sua primeira mamadeira de cerveja enquanto a mãe repousava por
um instante antes de voltar ao trabalho. Longa vida a Fikod, longa
vida a Sacovelho!
***
1º de
Granito, 1053
Hoje
finda meu mandato como feitor de Sacovelho. Encontrarei o novo
ocupante do cargo em breve e estou atrasado com as notas que pretendo
fazer para auxiliá-lo. Felizmente já encomendei as gravuras dos
mapas, mas ainda preciso fazer alguns últimos apontamentos ao
gerente de produção e ao escriba. Sacovelho cresceu rapidamente e,
creio, será alvo dos malditos goblins em pouco tempo. Com sorte meus
preparativos nos ajudarão a sobreviver. Logo voltarei a me dedicar
integralmente à ferraria, mas não sem alguma saudade da feitoria.
Bom, talvez um dia ainda volte a exercê-la, quem sabe.
***
As Gravuras encomendadas por Bâhdleop Tintaliado. Não há marcas distintivas de autoria nelas, mas há boatos de que um artista forasteiro fora o autor.
¹Sim, duarfico. Não reclame se não soa bem, preferia que eu chamasse de 'vinho anão'?
P.S.: As notas deixadas a seu sucessor incluíam também essa gravura, da qual nenhum anão foi capaz de retirar qualquer entendimento. Entretanto, vai anexa a este relatório também, na esperança de que futuras gerações saibam decifrá-la:










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