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terça-feira, 10 de março de 2015

O mandato de Bâhdleop Tintaliado, ferreiro-mestre, no ano de 1052, como contado pelo próprio em seu diário

Extratos retirados do diário do Feitor e ferreiro-mestre Bâdleop Tintaliado, da fortaleza de Sacovelho, do império Relíquia da Adoração. As demais entradas são de pouca relevância, maçantes, ou de estilo rebuscado demais para serem consideradas importantes. Aquilo que aqui se encontra é suficiente, entretanto, para informar o relatório sobre os acontecimentos do ano de 1052 no referido local. Gravuras da fortaleza em anexo.

2 de Granito, 1052
Hoje eu, Bâhdleop Tintaliado, dou início à minha jornada como feitor de Sacovelho. Cheguei aqui em meados do outono passado e, confesso, tinha poucas esperanças sobre o lugar. Afinal, o nome em si não é exatamente exaltador e, apesar da cercania pacata, tocas imundas de malditos goblins não ficam longe. Mas, bem, aqui estou e, mesmo sem saber bem o motivo, fui escolhido para zelar pelo lugar durante o próximo ano.

O feitor anterior, Oddiväl Pulacâmara, participou da construção de boa parte da fortaleza atual e pôde me informar detalhadamente de seu estado. Até me forneceu algumas gravuras que retratam com certo detalhe, e até mesmo algum requinte, os meandros de seus corredores. Tudo será de grande auxílio, já que pretendo expandir grandemente o lugar. Somos apenas 20 anões no momento, dezenove descontado o pobre Aban, encalacrado, louco, à espera da morte, mas creio que não demorará até que dobremos em número. De fato, prevejo um brilhante futuro para Sacovelho. Ugh... talvez devêssemos mudar esse nome.

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15 de Granito, 1052
Depois de analisar calmamente a disposição atual da fortaleza e sabendo da proximidade de goblins, resolvi que minhas prioridades deveriam ser: um, construir e equipar um hospital, que necessariamente precisará de uma manufatura de sabão e um poço com água limpa; dois, atingir a autossuficiência em alimentos; e, três, colocar em prontidão pelo menos uma guarnição, ainda que rota e mal treinada, mas de soldados cuja dedicação seja exclusiva à defesa da fortaleza, algo que depende de uma boa leva de imigrantes já que, correntemente, não possuímos números para tal. É, creio que meu sucesso depende de um tanto de sorte, e depender de sorte não é algo do que eu goste. Ah, planejei também a construção de um cemitério. Afinal teremos de enterrar Aban em breve e, conquanto não sejamos um grupo particularmente velho de anões, muito ao contrário, cedo ou tarde vamos precisar. Todos nós. E prefiro garantir eu mesmo uma boa tumba para mim, com boas gravuras e quem sabe até uma estátua ou duas...

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25 de Granito, 1052
Aban Roda-de-Marfim finalmente sucumbiu à sede. Um fim triste para um bom companheiro e ainda mais triste para nós, que não pudemos provê-lo com aquilo que ele necessitava. Mas assim é o destino daqueles que enlouquecem em busca da perfeição. Precisamos urgentemente escavar um lugar para o descanso final dos companheiros que vierem a morrer, antes que a visão da morte de alguém tão jovem acabe por abater a moral da fortaleza. Outra preocupação é Phillipe Portalança, um dos fundadores de Sacovelho e mineiro por profissão, que está sumido há vários dias. Ordenei buscas pelas minas e também nos campos ao redor da fortaleza, mas até agora não temos sinal dele. E há ainda o fato de que estamos efetivamente sem álcool e com níveis críticos de comida. Ah, que desastre pode cair sobre nós se eu não for rápido a lidar com isso!

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15 de Ardósia, 1052
Imigrantes! Precisávamos de mãos extras na fortaleza e finalmente várias barbas novas chegaram para ajudar. Ao todo são 19 anões, o que faz nossa população dobrar! Espero que não sejam inúteis camponeses sem qualquer habilidade, entretanto. E apesar de já termos alguma bebida, ainda não é muita, melhor que tenham trazido sua própria cerveja.

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18 de Ardósia, 1052
Era só o que faltava... Lokum Pé-de-guilda, a médica chefe da fortaleza, exigiu para si a oficina de artesanato e começou a balbuciar coisas sem sentido... Maldição! Será que não teremos um momento sequer de tranquilidade nesse lugar? O pior é que não sei se ela vai encontrar as tralhas de que precisa para sua "criação primorosa"... diabos... ela quer ossos. OSSOS! Onde vou arranjar ossos? Acho que vou ordenar o abate de um ou ambos os iaques. Espero que seja osso o suficiente para ela. Quer dizer, DOIS IAQUES INTEIROS, não pode ser que falte osso, por Armok!

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28 de Ardósia, 1052
Lokum finalmente terminou sua obra. Eu... nem sei o que dizer. Uma... uma... arca feita inteiramente de ossos. Macabro? À arca ela deu o nome de "O selvagem Carbonizador". Quero isso longe de mim! Vou construir uma caixa-forte nos subterrâneos da fortaleza para abrigar nosso bens mais valiosos e, com sorte, posso esconder essa coisa por lá, longe da vista de qualquer um. Bom, pelo menos ela acabou com sua obsessão e voltou às suas tarefas como médica chefe de Sacovelho. Ah, ainda por cima ela 'enfeitou' a tal da arca com a imagem de algo que ela chama de orca. MAS QUE DIABOS É UMA ORCA? Nah... longe de mim com isso!

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10 de Felsita, 1052

O horror! Tun Criptacicatriz foi encontrado morto na escadaria que leva às minas! Ao que tudo indica, morreu de sede antes de poder chegar ao refeitório. Uma morte que parece idiota, mas de fato não é, já que entre a parte inferior das minas e o refeitório há quase 100 andares de distância. Certamente desceu para trazer alguma pedra para o seu trabalho, sendo ele um pedreiro, mas esqueceu-se de beber antes e... bom, olhando por esse lado, parece uma morte estúpida, de qualquer jeito. Quem diabos se esquece de beber uma boa golada de vinho duarfico¹ (a única bebida disponível por aqui em meses além de... bleargh... água) antes de ir ao trabalho? E ainda por cima falta um lugar para enterrar o estúp... erm... nosso pranteado companheiro... preciso apressar a construção do cemitério.

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11 de Felsita, 1052
Phillipe foi encontrado. Morto, infelizmente. Desidratado, morreu buscando o caminho de volta para a parte superior da fortaleza. Essa escadaria está custando mais vidas do que uma guerra com os malditos goblins, por Armok!

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6 de Hematita, 1052
As coisas têm estado calmas ultimamente. Calmas até demais, considerando o passado recente. Espero que continuem assim, que isso não seja apenas a calmaria que precede a tempestade, como dizem alguns humanos que costumam se meter com navegação, mar e essas coisas. Quem é que pode gostar de viver em uma casa de madeira flutuante movida pelo vento? Muito, muito instável... só os humanos, mesmo...

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27 de Hematita, 1052
Ducim Canalmolhado veio até mim relatar que... está vendo fantasmas... pobre anão. Deve estar impressionado com a morte recente dos companheiros. Ele diz que levou uma surra do fantasma de Aban, e realmente Ducim está todo escoriado, tendo sido levado ao hospital para descansar. Deve ter sido vítima de alguma troça, alguém se aproveitando do fato de o pobre diabo ser tão impressionável. De qualquer forma vou providenciar a finalização do cemitério o mais rápido que der. Vai que... vai que não é só coisa de uma mente impressionada... uhh, calafrio!

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14 de Malaquita, 1052
Finalmente pude colocar nossos companheiros falecidos para descansar. Além disso, ontem chegou uma nova leva de imigrantes. Mais 9 anões para um total de 44 na fortaleza. Temos apenas 30 quartos, de maneira que mandei construir um dormitório coletivo, já que no momento não posso me concentrar em construir mais quartos. Espero que não haja *muita* reclamação a respeito disso.

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28 de Malaquita, 1052
Desta vez foi Caröllina Cercafornalha quem se enfurnou na oficina de artesanato. Está gritando, louca, por blocos, tijolos e... ossos... não, de novo não... MAIS OSSOS? O que há de errado com esse lugar que faz todo mundo ficar obcecado com osso, por Armok! Pelo menos conseguimos arranjar tudo o que ela queria. Agora está lá, trabalhando freneticamente em alguma coisa que ninguém sabe o que é.

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3 de Galena, 1052
Gabrjella Contestasino decidiu dar uma festa no Saguão Principal. Acho que depois de tudo o que já aconteceu desde o começo do ano, era tudo o que precisávamos.
Repare no anão fazendo bundalelê.
!!FESTA DURA!!

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7 de Galena, 1052
Caröllina finalmente desocupou a oficina, e saiu dela com uma espada curta... de osso. "Portão Umbral, a Água-Marinha de Pulmão" foi o nome que ela escolheu para a arma. Se ela quer assim, quem sou eu para dizer o contrário... Apenas estranho o fato de que a espada não leva nenhuma água-marinha. Mas... vou discordar? Eu? Não vou. Principalmente enquanto ela estiver com a espada em sua posse. Pedi a ela que depositasse a arma em nossa caixa-forte, entretanto. Não quero ninguém andando armado pela fortaleza enquanto não tiver montado um esquadrão. E acho que já está em tempo de fazer isso.

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16 de Calcário, 1052
Uma caravana! E é de casa! Nossos compatriotas da Relíquia da Adoração enviaram comerciantes para Sacovelho e creio que haverá muito pelo que trocar. Precisamos de couro para armaduras, já que não há gatos... erm... animais o suficiente para extrairmos por nós mesmos tudo o que vai ser necessário, além de sementes para plantar, algumas armas, gesso e tecido para eventuais ataduras em feridos, alguma variedade de alimentos e bebidas para diversificar nossa dieta e encher as dispensas para o inverno que vem chegando, além de mais uma ou outra coisa de que posso não me lembrar agora. Bem, barbas à obra!
Eu gosto de gatos. Não me julgue.

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1º de Madeira, 1052
Infelizmente nosso comércio com a caravana de Relíquia da Adoração não foi suficiente para prover tudo o que precisávamos. Produzimos pouco em termos de mercadorias de valor para torcar durante esses últimos meses tão concentrado estivemos em nossos projetos para expansão da fortaleza. É reconfortante, ao menos, o fato de que quase todos estão concluídos. Falta apenas colocar de pé o salão de treinamentos para a primeira guarnição de Sacovelho, já selecionada. Foi possível fazer até mais do que o previsto, já que ampliamos um pouco a área cultivável e aumentamos o corredor de entrada da fortaleza, provida de uma nova ponte levadiça sobre um fosso não muito profundo, mas seguro. Ah, com tudo isso até ia me esquecendo: mais uma leva de imigrantes acaba de chegar. São mais nove barbas e estou começando a ficar preocupado com as acomodações que temos. Não creio que tenha tempo para grandes obras com apenas três meses para o fim de meu mandato, mas... veremos o que será possível.

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1º de Selenita, 1052
É chegado o inverno. Tudo parece correr em ordem por agora. Espero que continue assim.

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20 de Selenita, 1052
Claro, não poderia durar muito tempo a tranquilidade em Sacovelho. Adil Tochatentada invadiu a forja e gritou na minha cara por "joias, carvão e METAAAAAAAAAAL". Ameaçou até jogar na minha cabeça uma barra de zinco que eu estava trabalhando, quando fiz menção de protestar. Aquele maluco! Bom, arranjamos o que ele pediu e agora ele está lá, impedindo que eu conclua algumas coisas que tinha em mente por causa de seu "projeto secreto", como ele chamou. Ao menos dessa vez não tem ossos envolvidos, mas mesmo assim espero que ele produza algo que seja útil, ou, pelo menos, bonito.

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5 de Opala, 1052
Sigh... Adil concluiu seu... projeto. Um amuleto, que ele chamou de "Sumiu Detectado". Nem sei como descrever, mas a coisa não acaba no nome. No seu amuleto, ele gravou uma imagem de seu próprio amuleto em cada face. Veja bem: Adil Tochatentada fez um amuleto em cujas faces ele gravou imagens do próprio amuleto que ele fez. Não sei se é um gênio ou um completo idiota, mas, por via das dúvidas, é melhor não contrariar. Vai para a caixa forte, quem sabe depois de Adil morrer essa coisa possa render uma boa quantia em alguma troca com uma caravana...

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25 de Opala, 1052
Ao extrair minérios em uma das seções da mina, alguns anões inadvertidamente perfuraram uma caverna que há algum tempo já se desconfiava que estivesse ali. Graças a Armok o contato entre a fortaleza e a caverna é apenas aéreo. Ao olhar vão adentro, os mineiros puderam identificar sinais de uma batalha recente entre, ao que parece, sapos gigantes e homens-proteus. Pedi que fosse providenciado o imediato selamento da caverna par que evitemos qualquer risco por agora. No futuro, quem sabe, poderemos explorá-la com calma, de preferência com um esquadrão bem treinado e equipado.

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23 de Obsidiana, 1052
Ah, um sinal auspicioso para o ano que vai entrar! O primeiro anão nascido em Sacovelho veio ao mundo hoje! Ou melhor, a primeira anã, Fikod Porretecobalto, filha de Unib Solarmodelo e Sodel Curandeiroestilingues, o escriba da fortaleza. Fiz questão de parabeniza-los e pude até me certificar de que a criança recebesse logo sua primeira mamadeira de cerveja enquanto a mãe repousava por um instante antes de voltar ao trabalho. Longa vida a Fikod, longa vida a Sacovelho!

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1º de Granito, 1053
Hoje finda meu mandato como feitor de Sacovelho. Encontrarei o novo ocupante do cargo em breve e estou atrasado com as notas que pretendo fazer para auxiliá-lo. Felizmente já encomendei as gravuras dos mapas, mas ainda preciso fazer alguns últimos apontamentos ao gerente de produção e ao escriba. Sacovelho cresceu rapidamente e, creio, será alvo dos malditos goblins em pouco tempo. Com sorte meus preparativos nos ajudarão a sobreviver. Logo voltarei a me dedicar integralmente à ferraria, mas não sem alguma saudade da feitoria. Bom, talvez um dia ainda volte a exercê-la, quem sabe.

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As Gravuras encomendadas por Bâhdleop Tintaliado. Não há marcas distintivas de autoria nelas, mas há boatos de que um artista forasteiro fora o autor.






¹Sim, duarfico. Não reclame se não soa bem, preferia que eu chamasse de 'vinho anão'?

P.S.: As notas deixadas a seu sucessor incluíam também essa gravura, da qual nenhum anão foi capaz de retirar qualquer entendimento. Entretanto, vai anexa a este relatório também, na esperança de que futuras gerações saibam decifrá-la:

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